O Autor: Mário Sérgio de Araújo Silva, é pastor auxiliar na Assembleia de Deus em Joinville/SC, Supervisor do Setor 18 (Bom Retiro). Possui formação em Sistemas de Informação, Direito e Teologia.
Da Introdução
“Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.18-20)
Mais uma vez vamos tratar sobre um tema já atual, porém a cada dia mais desafiador para a Igreja do Senhor, que o discipulado e suas fases, frisando aqui a consolidação e a integração de novos convertidos.
Certa vez, ao ministrar em uma turma da faculdade de teologia, sobre liturgia, chegamos à conclusão, com a turma, que o problema de certas liturgias, era ter se nacionalizado como sendo de respectivos lugares. Aonde quero chegar? Eu diria que é mais ou menos o problema do discipulado atualmente, está se tornando tudo e se distanciando do modelo e dos objetivos bíblicos aos quais foi constituído por Deus desde o princípio. Já existem guerras entre grupos, cujas disputas giram em torno da melhor metodologia, melhor definição, melhores especialistas, e até quem foi chamado primeiro ou não. Existem até os que reivindicam a ‘fundação’, a ‘autoria’, o ‘mentorismo’, do discipulado bíblico.
Bom, frente a esse quadro assustador, não podemos esquecer os inúmeros casos de sucesso. Os casos aonde o discipulado bíblico, independente da estratégia de aplicação, tem funcionado e acrescentado à Igreja do Senhor frutos dignos do nome de Deus ser glorificado e exaltado.
O que precisamos fazer, não é outra coisa senão voltar sempre ao modelo bíblico. Observar sempre os objetivos de Jesus, assim como a aplicação que foi dada pelo próprio Jesus à sua ordenança.
De Alguns Aspectos Fundamentais
Alguns elementos são indispensáveis a exercício do discipulado nos dois sentidos (discipulador x discípulos), e que estão meio que sendo esquecidos, ou simplesmente não foram ainda bem compreendidos por muitos. Vejamos alguns:
- A Maturidade Necessária - Normalmente quando se pratica o discipulado, se observa muito o caráter daquele público alvo, o público passivo, a ponta da seta para onde o discipulado está indo, e se esquece do outro lado do processo, que também precisa ser maduro o suficiente para poder transmitir maturidade. Objetivamente, tanto o discipulo precisa ser trabalhado para contrair certa maturidade, como também o discipulador precisa ser trabalhado, até por si próprio, a fim de aperfeiçoar a ordenança de Cristo em sua vida.
- O Preparo Intelectual – Não é novidade, infelizmente, no meio cristão, nem precisa contratar uma ampla pesquisa, para chegar a conclusão que a maioria dos crentes não leem a bíblia regularmente, o que dirá ler livros, ou fazer cursos complementares para o exercício de suas missões bíblicas. Temos casos e casos de discipuladores que perdem seus discípulos por serem desacreditados por eles, por falta de conhecimentos mínimos fundamentais.
- O Preparo Espiritual – Biblicamente, nossa luta é espiritual (Ef 6.12), e não física. Nesse contexto, também são muito poucas as horas de oração e consagração dedicadas ao exercício do discipulado. O discipulado em si, inclusive, se não vigiarmos, gera uma sensação de autossuficiência a ponto de alguns discipuladores se acharem tão capazes que nem precisam mais buscarem a Deus. Vou lembrar aqui dos riscos espirituais que está exposto alguém que discipula, lembrando Mc 16.17, 18.
- Conceitos Fixados – O que é discipulado? Aonde está a base? Como vou praticar? Por que vou praticar dessa forma? Quais os objetivos? Qual o foco? Enfim, são perguntas que não podem deixar de ser compreendidas, principalmente por quem deseja ser discipulador.
- Capacidade Perceptiva – É a capacidade que o discipulador precisa ter para identificar a evolução espiritual e intelectual do discípulo. Com ela é que se evolui ou se retrocede fases e procedimentos. Também, é importante aqui se compreender, por parte dos discípulos, sobre a própria evolução espiritual, sobre a consciência própria da necessidade de crescimento.
Bom, poderia citar outros elementos essenciais a esse contexto, mas vamos refletir somente sobre esses nesse momento, devido limitação de contexto nesse material.
Do Discipulado
Compreendo o discipulado como um processo bíblico, cujo objetivo principal é a formação do caráter de Cristo em alguém, cuja consequência maior e a aproximação desse ao próprio Cristo. Se isso é verdade, uma série de outros aspectos serão desenvolvidos, como a maturidade cristã e a reprodução natural dessa maturidade, através dos mesmos elementos, na vida de outra pessoa, que é a reprodução.
O que é um processo? (do latim procedere) é um termo que indica a ação de avançar, ir para frente (pro+cedere) e é um conjunto sequencial e particular de ações com objetivo comum. Pode ter os mais variados propósitos: criar, inventar, projetar, transformar, produzir, controlar, manter e usar produtos ou sistemas. Ainda pode ser definido como a sincronia entre insumos, atividades, infraestrutura e referências necessárias para adicionar valor para o ser humano. Ou ainda, é a sequência de passos, tarefas e atividades que convertem entradas de fornecedores em uma saída. Exemplos de processos incluem a formação, preparação, tratamento ou melhora de materiais em suas características físicas ou químicas, resultando na sua transformação.
Perceba então o quão amplo se torna o discipulado quando aplicamos bases bíblicas ao contexto de processo, a ponto de não termos como conquistar êxito em tentar explicar tudo por aqui. Com isso então foquemos nos novos convertidos e digamos que, nesse contexto, precisamos formar o caráter de Cristo neles que estão iniciando uma vida de fé. Neles, o discipulado precisa estabelecer fases e conferir a correta aplicação de cada uma, acrescentando elementos que irão compor o êxito dessas fases (curso bíblico, por exemplo).
Veja que o processo é o mesmo e que, portanto, os objetivos são os mesmos, apenas dividiremos em fases no sentido de observarmos a própria evolução do objetivo principal do processo. Por exemplo, após a fase da ‘decisão para Cristo’, precisamos nos preocupar com a ‘consolidação’ dos novos convertidos na fé, trabalhando, através de elementos (visitas, contatos e instruções bíblicas), a fim de que o novo convertido não desista da vida com Cristo por causa de aspectos próprios (internos), ou dos outros (externos). Ainda precisamos trabalhar o convívio social, levando em consideração vários focos (crescimento doutrinário, espiritual, social, representativo, dentre outros), que é a integração.
Da Consolidação
Em rápidas palavras, a consolidação é a fase do discipulado aonde o novo convertido deve ser conduzido a conscientização sobre sua decisão a Cristo. É o aperfeiçoamento do relacionamento vertical, entre a pessoa e Deus. É algo que deve ser buscado de imediato, pois, após o novo nascimento precisa-se aplicar as primeiras vacinas.
Essa é a definição básica e, ao mesmo tempo, o objetivo principal de uma série de ações que serão tomadas a partir de então. Essas ações giram em torno de: primeiro contato, primeira visita, primeiro estudo bíblico, primeiras visitas à congregação...
Da Integração
A integração é outra fase indispensável. Essa, em muitos casos, é trabalhada em discípulos e, por vezes, até em discipuladores, durante até todo o processo do discipulado. O objetivo aqui, de uma forma direta é tornar o alvo participante da igreja em todos os seus aspectos (doutrinário, cultural, social e litúrgico), no nosso caso os novos convertidos.
Essa fase é entendida por muitos como algo à parte do discipulado, porém não há mandamento direto para integração na bíblia, o que há é mandamento para discipular, e, integrar como parte desse mandamento de discipular. O discipulado em si, embora deficiente, sobreviveria sem a fase da integração, mas o contrário, ainda que fosse com deficiência, não sobreviveria; o que comprova mais uma vez que a integração é parte de um processo, uma fase, as vezes longa, que precisa ser trabalhada com muito cuidado.
A falta, ou a não observação, da integração, traz consequências tão negativas que as vezes chega a justificar a existência de alguns problemas comuns nas igrejas (problemas de relacionamentos e comportamentos de diversas naturezas).
Também precisamos lembrar que integrar uma pessoa à Igreja do Senhor não é só atribuir determinada função à mesma. Existem outras áreas da integração que devem ser percebidas, como fase do discipulado..., como: Se o novo convertido está se adaptando aos horários de cultos e atividades que promovam seu crescimento espiritual; se está conseguindo se relacionar com os demais membros locais; se está conseguindo se adaptar à vida devocional diária; se está se adaptando aos costumes da comunidade cristã que está fazendo parte; se está conseguindo entender o funcionamento e a hierarquia da igreja...
É uma fase muito ampla e constante!
Da Conclusão
Analisei aqui, de forma rápida e superficial, embora consistente, alguns aspectos fundamentais e indispensáveis do discipulado bíblico. Vale a pena ressaltar que o alvo do discipulado bíblico não é só novos convertidos, sendo esses o principal alvo. Também temos pessoas que retornam aos caminhos do Senhor, além daqueles que já estão no caminho e, por algum motivo ou pela não participação em algumas das fases apresentadas, não possuem elementos no caráter espiritual, precisando assim serem assistidos também. Isso tudo independe do tempo de fé, e, inclusive inclui pessoas que nem aceitaram a Cristo ainda.
Deus nos abençoe e nos dê graça e disposição para cumprirmos tão sublime mandamento!
Das Referências Bibliográficas
- Bíblia de Estudo Pentecostal: edição Almeida Revista e Corrigida. Tradução de: João Ferreira de Almeida. São Paulo: 1995.
- AURELIO, O minidicionário da língua portuguesa. 4ª edição revista e ampliada do minidicionário Aurélio. 7ª impressão – Rio de Janeiro, 2002.
- IBARZ, A.; BARBOSA-CÁNOVAS, G. V. Unit operations in food engineering. 2002. ISBN 1-56676-929-9